quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Política é o fim? " Parte 1

"Política é o fim", desabafa o personagem de uma canção de Caetano Veloso, saturado da política brasileira. Não é pra menos, após séculos de colônia, dezenas de anos sob o Império escravocrata, outras décadas sob as oligarquias da República Velha, sucedida pela ditadura de Vargas. Em seguida o populismo, culminando em vinte anos de ditadura militar, que desembocaram nos governos Sarney e Collor, cômicos se não fossem trágicos. Depois de tudo isso, no meio de uma crise política, social, econômica e ideológica que se converte num pesadelo inacabado, como não concluir que, de fato, "política é o fim?"

Diariamente aumentam a miséria, a criminalidade, o extermínio de crianças e adolescentes de rua, a irresponsabilidade no trânsito, o arrocho salarial, os assassinatos de líderes sindicais e políticos rurais, a agressão ao meio ambiente, o desrespeito aos direitos humanos e de cidadania. Deterioram-se as condições de educação e saúde públicas. Prevalece a impunidade para crimes de colarinho-branco. A corrupção penetra em cada poro da sociedade.

Enquanto isso, elites governamentais aplicam suas receitas econômicas e sociais de cima para baixo, com os resultados que conhecemos. Os inúmeros escândalos, concorrências fraudulentas, negociatas de todas as espécies com o dinheiro público, políticos pobres que enriquecem da noite para o dia, o famoso “caixa 2” para sustentar campanhas que garantem reeleições, o poder do dinheiro corações, mentes e corpos, tudo parece um círculo vicioso e corrupto da política, onde quem pode mais chora menos. É cada um por si e Deus por todos. Deus não é brasileiro? Um sambista já dizia “Deus dá o frio conforme o cobertor”. E, por falar em Deus, certos parlamentares brasileiros aplicam à sua maneira a máxima de São Francisco de Assis, “é dando que se recebe”- um favor ou um cargo público para cá, um voto no congresso favorável ao governo para lá.

Os cínicos dirão que fazer política é um bom negócio para os que se elegem a cargos públicos. Dá para pôr em ordem a vida da família, dos amigos e dos parentes. Não é à toa que em todas as eleições cresce o número de interessados em se candidatar a postos eletivos. Parece-lhes o meio mais fácil e rápido de subir na vida.

O trágico é que aos poucos nos acostumamos com toda essa situação. É como se ela fosse natural , inevitável. Vamos perdendo a capacidade de nos indignar. A violência do cotidiano social, político e econômico se banaliza. Fechamos nossas janelas de frente para o crime e ficamos sentados em frente da TV, “com a boca escancarada, esperando a morte chegar”, como diriam, respectivamente, Aldir Blanc e Raul Seixas.

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